O documentário “Voz da Saudade: A história não contada do Clube São Martinho”, disponível gratuitamente em streaming, recupera a trajetória de um tradicional time amador e do espaço onde aconteciam seus treinamentos e partidas.
O futebol, por sua própria essência, carrega episódios marcantes em sua história. Assim como Sócrates liderou, nos anos 1980, o movimento da Democracia Corinthiana em defesa do voto direto, trabalhadores de Tatuí (SP) protagonizaram uma disputa contra uma fábrica de tecidos para preservar o campo onde realizavam jogos e treinos amadores.
Essa narrativa é resgatada no documentário. A segunda parte da produção, lançada na última sexta-feira (8), apresenta o depoimento de dois personagens que participaram da batalha judicial para recuperar o terreno utilizado pelo clube.
Segundo o produtor Alan Feliciano de Souza, o Esporte Clube São Martinho foi criado em 1939 por operários da cidade de Tatuí. Na época, o terreno onde funcionava o campo foi cedido verbalmente pelos donos da fábrica de tecidos onde muitos dos atletas trabalhavam.
De acordo com ele, o clube se desenvolveu ao longo dos anos e se transformou em um importante ponto de convivência para famílias, trabalhadores e moradores da região próxima à fábrica.
José Norbal, que atuava como diretor de esportes e também participa do documentário, recorda que nas décadas de 1970 e 1980 o município viveu um período muito ativo no cenário esportivo, especialmente no futebol. O São Martinho contava com diversas categorias de base e também com a equipe principal adulta, que participava das competições da Liga Tatuiana de Futebol, vinculada à Federação Paulista de Futebol.
Entretanto, em 1981, decisões controversas acabaram interrompendo as atividades do clube. Conforme relata Alan Feliciano, cerca de 42 anos após a fundação, a fábrica foi vendida para outra família, que decidiu reivindicar a área novamente. Como a cessão do terreno havia sido apenas verbal, não existia documentação formal que garantisse a posse.
Mesmo diante da tentativa de impedir o funcionamento do clube, Norbal afirma que as atividades esportivas nunca deixaram de acontecer. As categorias de base continuavam treinando e a equipe principal seguia participando dos campeonatos municipais.
Com o espaço oficialmente fechado, jogadores e membros do clube encontraram maneiras de contornar a situação. Segundo o produtor, muitos chegavam a cortar cadeados ou pular muros para conseguir entrar no campo e realizar os treinos.
A disputa acabou chegando à Justiça e se transformou em uma longa batalha jurídica que durou cerca de 12 anos. A segunda parte do documentário reúne relatos de um ex-advogado e de um ex-secretário do clube, que estiveram diretamente envolvidos na defesa dos trabalhadores.
Alan Feliciano destaca que, de um lado, havia apenas um advogado representando o clube, enquanto a fábrica contava com uma grande equipe jurídica para proteger seus interesses.
Para ele, o Esporte Clube São Martinho representa um importante patrimônio histórico de Tatuí, preservado graças à mobilização e à resistência da comunidade contra os proprietários da fábrica, que pretendiam recuperar o terreno principalmente por motivos ligados à especulação imobiliária.








